Pequeno varejo pode ser beneficiado pelos efeitos da crise financeira
Pequenas lojas poderão aumentar competitividade em relação às grandes redes de varejo devido ao baixo custo operacional e negociações com a indústria, segundo presidente da CNDL, Roque Pellizaro
Brasília – Os efeitos da crise financeira mundial estão à porta do robusto setor de comércio varejista no Brasil. O principal reflexo será a redução dos prazos nas vendas ao consumidor. As grandes redes de varejo terão de se adequar aos novos prazos, enquanto o pequeno comércio não precisará, pois já os pratica e de forma independente do sistema financeiro.
O desabastecimento de produtos importados no Natal também preocupa comerciantes e lojistas. Empresas importadoras não estão comprando nem encomendando, devido à turbulência do dólar.
Durante esta fase, pequenos comerciantes poderão ter vantagens competitivas em relação às grandes redes varejistas, devido ao baixo custo de suas operações e a negociações com a indústria, que precisará `desovar¿ produtos, especialmente os bens de consumo duráveis (móveis, eletrodomésticos, eletroeletrônicos etc).
A economia global deverá levar entre 12 e 24 meses para se estabilizar em um novo patamar, quando a crise e seus efeitos terão passado definitivamente. A análise do comportamento do setor de comércio varejista, durante a crise financeira internacional, e a previsão do final de seus efeitos na economia foram feitas pelo presidente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), Roque Pellizaro, em entrevista à Agência Sebrae de Notícias.
ASN – Os efeitos já chegaram ao comércio varejista?
Roque Pellizaro – Estão à porta, na forma de redução dos prazos nas vendas. Mas o que mais preocupa alguns segmentos é o possível desabastecimento no Natal, em relação aos produtos importados. Importadores não estão adquirindo devido às incertezas do dólar.
ASN: A redução do crédito não afeta o setor?
Roque Pellizaro – No nosso setor, o crédito é fornecido de duas formas: por meio do próprio lojista, para produtos de baixo valor agregado; ou via financeiras, para produtos de alto valor agregado, como eletrodomésticos, eletroeletrônicos, móveis etc. Podemos dizer que a falta de liquidez ainda não nos afetou. Mas os segmentos que dependem de financeiras serão afetados. Tenho dito que precisamos de fazer do limão a limonada. O que pode ser ruim para os negócios apoiados por financeiras, pode gerar rentabilidade para pequenas e médias empresas.
ASN – Resumindo, a crise pode ser vantajosa para o pequeno comércio?
Roque Pellizaro – Isso mesmo, os grandes lojistas serão mais atingidos do que os de pequeno porte. Para os pequenos, essa crise pode se tornar oportunidade. As grandes redes de varejo vão sofrer uma retração natural. Esse espaço vai ser ocupado por alguém. Os pequenos comércios devem ocupar esse espaço. Eles terão ganhos melhores, se souberem controlar as vantagens operacionais e as negociações com as indústrias.
ASN – A indústria vai oferecer melhores condições para o pequeno comércio?
Roque Pellizaro – Isso deverá acontecer, pois a indústria vai precisar vender além do grande varejo e vai acabar colocando melhores preços para lojistas de pequeno porte. Por outro lado, as grandes redes e lojas vão ter que vender em prazos menores aos consumidores. Esses prazos já são praticados pelos pequenos comércios. O fator competitivo das pequenas e médias empresas vai aumentar. A guerra ficará mais equilibrada entre grandes redes de varejo e pequenos comerciantes.
ASN – E como ficarão as vendas deste Natal?
Roque Pellizaro – O brasileiro vai comprar, isso é histórico. As vendas não serão de acordo com a nossa expectativa de seis meses atrás, que era de aumentar em torno de 10% em relação ao Natal passado. O crescimento das vendas deverá ficar em torno de 5%. Produtos brasileiros deverão substituir os importados. Voltei de uma missão empresarial à China, na sexta-feira passada, e vi que se os importadores não comprarem nos próximos dez dias, os produtos não vão chegar para o Natal. A logística que envolve os produtos, desde a encomenda, sair da China, até chegar ao Brasil, leva tempo. O prazo está se esgotando.
ASN – E as contratações temporárias?
Roque Pellizaro – Quem emprega mais temporários são os grandes varejos. Os pequenos costumam ajustar suas equipes para trabalhar mais, oferecendo melhores condições para aumentar a remuneração e prêmios. O número de empregados temporários será menor entre 20% e 30% do que as contratações no Natal de 2007.
ASN – O quê aconselha aos empresários do varejo em geral?
Roque Pellizaro – O pessimismo generalizado não deve tomar conta do varejo. Porém, o empresário deve ser cauteloso nas compras e com o estoque. Outra precaução: ficar atento no processo de concessão de crédito. A partir de janeiro, depois das compras de Natal, a inadimplência pode aumentar. Hoje, o bem maior é o dinheiro. Reduza as compras e o estoque, dentro do limite possível.
ASN – A crise do sistema financeiro mundial pegou o mundo de surpresa?
Roque Pellizaro – Não, o mundo sabia que uma bolha estava para estourar. Em algum momento, ia ter que converter papel em dinheiro. Só não dava para imaginar que ia existir muito mais papel do que dinheiro na hora da conversão (arrumação). A falta de liquidez afeta a realidade, mas acho que dentro de 12 a 24 meses, o mercado estará estabilizado num novo patamar. Até final de 2010, retornaremos a um patamar semelhante ao anterior à crise.
ASN – A crise é ou não é uma tsunami?
Roque Pellizaro – É uma tsunami. Até onde ela vai chegar no continente é a dúvida. A economia não é mais local, está toda interligada. O mercado de bens duráveis será muito afetado.
ASN – Afinal, a globalização da economia é vantajosa?
Roque Pellizaro – Não sei dizer se é vantajosa ou não. É como me pedir para dizer se é melhor estar no seco, estando na água. Estou dentro d¿água, não sei como é estar no seco. A globalização da economia é a realidade e não tem mais volta. Todo o mundo se interligou de maneira a não voltar atrás. Sozinho e isolado ninguém consegue mais atuar no mercado. Todos os elos das cadeias de negócios estão ligados e dependentes entre si. Voltar para o mercado de antes é impossível.
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